Tantra e Pornografia

Estudar o Tantra e buscar recursos práticos para experimentá-lo em nosso próprio corpo fez com que a pornografia desaparecesse aos poucos do nosso estilo de vida.

Talvez, tomar posse do potencial de prazer e êxtase que seu próprio corpo tem, possa lhe entregar uma experiência íntima a qual o seu relacionamento com a pornografia perca o sentido.

Quando o nosso trabalho como terapeutas caminhou no sentido de olharmos o desenvolvimento humano pelo ponto de vista da sexualidade, havia uma certa apreensão dentro da gente. O que as pessoas pensariam? Talvez alguém da nossa família se sentisse ofendido? Falar franca e abertamente sobre sexo sempre foi um problema na nossa sociedade. O resultado disso, talvez seja o seu trabalho ser taxado como prostituição ou classificado nas mesmas categorias de censura do que a própria pornografia.

“Como” se usa é importante, mas…

Não temos dúvida que o “Como” se usa a pornografia abrange um amplo espectro de possibilidades e muitas delas com aspectos positivos, construtivos e criativos na vida de uma pessoa. Um exemplo simples disso é de um casal onde os dois curtem assistir juntos para apimentar a intimidade do relacionamento.

Mas existe algo além do “como” se usa, que é a origem e “como” estes vídeos são produzidos nesta indústria. A Pornografia movimenta mais de 100 bilhões de dólares por ano, que em 2017 alcançou o segundo lugar no ranking de lucratividade, perdendo apenas para o crime organizado e o tráfico de armas. Indústria que infelizmente faz de maiores vítimas as mulheres. Só para vocês terem uma ideia, 90% das mulheres que trabalham na indústria pornográfica tem histórico de abuso sexual na infância e as taxas de stress pós-traumático na vida destas mulheres são similares as dos veteranos de guerra.

E neste clima poderíamos seguir discorrendo dados que incluiriam a expectativa de vida dessas pessoas, os dados monstruosos a respeito da exploração sexual infantil a serviço da produção de material pornográfico.

Sem contar que as mesmas pesquisas indicam que o volume e a intensidade do consumo de pornografia estão diretamente relacionados com a baixa de libido e com a disposição para o encontro sexual com outra pessoa.

E com toda absoluta clareza podemos dizer que esse peso da sociedade patriarcal machista é o grande patrão desta indústria em que os dados escondidos por trás das câmeras revelam, mas se a gente parar para assistir, veremos que não são somente os dados, mas também a ejaculada no rosto de uma mulher de joelhos, que é sempre o desfecho previsível de qualquer roteiro de 95% de tudo que é produzido por essa indústria.

Alguns pontos relevantes para a reflexão a respeito da pornografia

  • Aparência é tudo

A mensagem subliminar transmitida pela pornografia nos diz que para termos um sexo excelente precisamos de um corpo excelentemente encaixado nos padrões de beleza ditados por eles: Você deve ser jovem, curvas incríveis, seios perfeitos e um pênis grande, caso contrário, você não pode ser um bom amante.

  • Meu objetivo é te fazer gozar

Há uma parte profunda de nós mesmos que sabe que o desejo de agradar nossx parceirx é realmente uma coisa maravilhosa, mas na pornografia isso é explicito como a única finalidade de um encontro íntimo, conduzir a outra pessoa ao orgasmo é o único objetivo. E isso nos afasta das infinitas possibilidades de descansarmos no “Fazer Amor”, causando ansiedade e níveis intensos de adrenalina que atrapalham o encontro íntimo.

  • Intimidade não tem importância

Pornografia é sexo sem intimidade. É simplesmente uma diversão física entre duas ou mais pessoas. Isso pode ser realmente divertido, prazeroso e muito bem aproveitado, mas uma vez reduzido todo o potencial do encontro sexual a esta possibilidade exclusivamente física, é tapar os olhos para um horizonte muito mais amplo que se abre mais além.

A verdade é que nós, seres humanos, estamos usando talvez 5% de nossas habilidades sexuais. Outro dia, lendo a respeito do tantra nos deparamos com essa analogia que é simples e clara para ilustrar. É como escrever música usando apenas 10 teclas de um piano e ignorarmos todas as outras 78 teclas. Como soaria essa música?

E quanto mais nos dedicamos a tocar o piano somente com 10 teclas, é a prática que temos ancorado em nosso estilo de vida e em nosso subconsciente, continuamos por reafirmar essa verdade restrita em nossas crenças limitantes.

A Intimidade Consciente e os conhecimentos do Tantra ampliam os horizontes e nos ensinam a tocar o piano com as 88 teclas disponíveis. Como soaria essa música?

  • O Corpo é um veículo

O corpo pode ser belo e bem cuidado, conforme a verdade interior de cada pessoa. E muito mais erótico e sensual do que um corpo bem moldado nas academias pelo padrão da estética do sexo, é a pessoa com uma sexualidade viva dentro de si, preenchida de energia vital, com disposição e condição emocional de descansar no seu próprio corpo. Porque um encontro íntimo potente tem muito mais haver com a qualidade da entrega ao fluxo de energia do encontro entre dois corpos e duas intimidades, do que com a perfeição estética dos corpos envolvidos no encontro. A qualidade do seu orgasmo e de como essa energia pode ser potencializada e fluir sobre o seu corpo não tem a ver com a qualidade estética e física da pessoa que você se relaciona.

  • O prazer é maior quando é mútuo

Quando tocamos nosso parceiro e estamos realmente presentes e desfrutando da nossa própria sensação da pele de nosso parceiro, o prazer é compartilhado e sentido pelos dois. Seu toque será diferente do que se você estivesse apenas fazendo isso para conduzi-lo ao orgasmo. Quando você está realmente presente e entregue ao encontro, as barreiras do prazer entre o dar e o receber se esvanecem e o encontro íntimo pode ser uma dança e um dar e receber perene do próprio encontro. Simplesmente há o prazer em ser compartilhado independentemente de quem está fazendo o quê.

  • A Intimidade é um tesão

Os encontros íntimos de média e longa duração, os rituais de intimidade descritos pelos Tantras como o Maithuna, necessariamente pedem por mais intimidade, por comunicação, por revelar-se para o outro. O próprio fato do tempo do encontro íntimo se prolongar e incluir infinitas novas possibilidades, pede por mais intimidade. E com a prática do Maithuna começa-se a perceber que existe algo de erótico e de manter a chama acesa ao ir se revelando e descobrindo os segredos e mistérios, um do outro.

É um eterno conhecer e se reconhecer em camadas que estão sempre mudando e por esta via ancoramos a imprevisibilidade e constante renovação necessária, principalmente aos relacionamentos íntimos de médio e longo prazo. Sem contar que este é um terreno fértil para a prática do bem estar, de boas reflexões e de uma vida mais leve. E através dessa conexão de intimidade a energia sexual selvagem ou suave pode fluir com muito menos obstáculos.

E o mais incrível é que não são necessários truques e técnicas inalcançáveis e escondidas em antigos escritos guardados nas gavetas de mosteiros isolados no Himalaya. É algo intrínseco e possível a qualquer ser humano que se disponha a reativar essa memória registrada na consciência coletiva da humanidade.

Então Tantra é o antídoto que vai eliminar a pornografia da face da terra?

Com certeza não. Sexo é bom demais e nos faz sentir vivos, assistir outras pessoas fazendo sexo também é algo excitante natural de qualquer ser humano. Mas sem dúvida já existe um movimento novo na produção de filmes eróticos que contemplam estes conhecimentos, o respeito e o equilíbrio entre as energias Yin e Yang (feminina e masculino). São ações muito isoladas e pouco difundidas, mas que poderiam trazer muita a saúde para as novas e tão necessárias referências que a sexualidade humana está tão carente.

Então acreditamos que alguma transformação pode acontecer por esta via.

Enquanto isso estes conhecimentos e práticas seguem mostrando para as pessoas que usar todos os recursos do nosso corpo, emoções e mente, para enriquecer a experiência do encontro íntimo sexual, pode ser bem mais interessante do que as rápidas e frias incursões em atos masturbatórios fugazes e descompassados da qualidade de experiência íntima que todos nós desejamos.

Escrito a 4 mãos,

Pema e Thiago