“Há um ser que vive no subterrâneo selvagem das naturezas das mulheres. Essa criatura faz parte da nossa natureza sensorial e, como qualquer animal completo, possui seus próprios ciclos naturais e nutritivos. É esse aspecto da mulher que tem cio. Não um cio voltado exclusivamente para a relação sexual, mas uma espécie de fogo interior cuja chama cresce e depois abaixa em ciclos. O cio da mulher não é um estado de excitação sexual, mas um estado de intensa consciência sensorial que inclui sua sexualidade, sem se limitar a ela.
Muito poderia ser escrito acerca dos usos e abusos da natureza sensorial feminina e sobre como a mulher e outras pessoas atiçam o fogo à revelia dos seus ritmos naturais, ou tentam extingui-lo por completo. No entanto, em vez disso, vamos focalizar um aspecto que é ardente, decididamente selvagem, e que transmite um calor que nos mantém aquecidas com boas sensações.
Na mulher moderna, essa manifestação sensorial recebeu pouquíssima atenção e, em muitas regiões e períodos, foi totalmente eliminada.
Existe um aspecto da sexualidade feminina que, nos tempos remotos, era chamado de obsceno sagrado, não na acepção que damos hoje ao termo, mas com o significado de uma sabedoria sexual de certa forma bem-humorada. Havia outrora cultos a deusas voltados para uma sexualidade feminina irreverente. Longe de serem depreciativos, dedicavam-se a ilustrar partes do inconsciente que ainda hoje permanecem misteriosas e em grande parte desconhecidas.
A própria ideia da sexualidade como sagrada e, mais especificamente, da obscenidade como aspecto da sexualidade sagrada, é vital para a natureza selvática.”
Clarisse Ester Pinkolas em “Mulheres que Correm com os Lobos”