Papo de Homem pra Homem

Fazendo uma alusão ao Blog que gosto de acompanhar em minhas incursões na rede, o “Papo de Homem”, estou me propondo o desafio de colocar em palavras algo da minha percepção que a lida como terapeuta trabalhando com foco na sexualidade tem feito ebulir em mim.

São 37 anos de caminhada neste mundo, dos quais mais de 15 anos são trilhados com muita sede de entender a minha própria natureza humana, acompanhado de boas doses de esperança de transcender o pessoal e beber de uma fonte que esteja além das convenções humanas, que neste tema específico é expresso na diferença dos gêneros, macho e fêmea.

Eu me arrisco em dizer que esse papo aqui é mesmo para homem, ou para aqueles que se sentem claramente identificado com o gênero, independente de orientação sexual. E se você é mulher e está lendo isso aqui, tudo bem, não precisa se retirar, talvez você possa sentir empatia pelo tema e tirar algum proveito.

Tem que ser macho mesmo

Porque tem que ser muito macho, com toda a carga que essa expressão possa representar, para romper com essa estética do masculino que o sistema patriarcal pede de nós, para deixar as machices de lado e acolher uma dose mínima e suficiente de vulnerabilidade para que realmente aconteça uma transformação pessoal e também, quem sabe posteriormente, no âmbito familiar e social.

Eu e minha companheira, a Pema, estamos na linha de frente de um trabalho terapêutico com foco no assunto básico de qualquer relacionamento íntimo, a sexualidade. Assunto que tem pela frente uma caminhada a se perder no horizonte, para que o tema deixe de ser um tabu.

Temos atendido muitos casais em movimentos louváveis, motivados por um querer claro e legítimo de vivenciarem um relacionamento com mais saúde, integrado com o instinto, as emoções, o intelecto e a rotina da vida, que na maioria das vezes é consideravelmente exigente.

Em um dos nossos trabalhos de imersão para casais entramos de peito aberto na exploração de práticas específicas para potencializar a ligação de prazer entre as duas pessoas do relacionamento.

E temos sido muito procurados, muito mesmo. Diariamente estamos respondendo mensagens, e-mails, ligações, atendimentos em consultório, muita gente com sede e interessada por vivenciar essa expansão em seus relacionamentos.

Quem procura mesmo são as mulheres

Noventa por cento das pessoas que nos procuram são mulheres. Isso mesmo, praticamente todas as pessoas que nos procuram são mulheres.

Eu poderia optar por fazer uma dissertação enorme a respeito das motivações básicas dessa busca feminina urgente e sedenta de vivenciar seu próprio prazer com mais plenitude. Penso que muito tem se dito a este respeito, que se torna um assunto racionalmente quase esgotado, mesmo que ainda pouco vivenciado. O próprio refluxo da maré feminista, que reconquistou muita força nos últimos tempos, tem estampado na cara da sociedade uma mão feminina imposta e legítima que diz “Chega!”, “Não suportamos mais isso!”, “Queremos o nosso lugar de direito!”, “meu corpo, minhas regras” e por aí segue em afirmações necessárias, mas ainda separatistas. Isso é apenas um reflexo claro do que tem acontecido em nosso interior mais íntimo e na maior parte das dinâmicas dos relacionamentos entre as polaridades de gênero.

Mas o papo aqui é pra homem

Mas o que me traz aqui é realmente a vontade de ter um “Papo de Homem” para homem, falar de um outro ponto de vista da mesma história, esse do qual se fala menos, que diz a respeito das motivações masculinas, também “legítimas”, de um querer bem claro e estruturado de não tocar nesses assuntos, de não mexer nesse vespeiro e de não se submeter ao nível de vulnerabilidade necessário para que as ondas de uma liberdade e saúde mais verdadeiras se aproximem.

Afinal o homem goza e está tudo certo.

O homem não precisa fingir orgasmo, está tudo certo com ele.

O homem está no comando deste mundo todo, ocupa as principais cadeiras, então está tudo certo.

O homem não precisa de terapia porque resolve tudo em sua racionalidade prática e desenvolvida, está tudo certo com ele.

O homem paga as contas e isso lhe dá direitos.

O homem ganha mais por fazer menos e está tudo certo.

O homem trabalha o dia inteiro, e quando chega em casa é dever da mulher estar disponível para oferecer o alívio necessário do stress, e claro que isso também está tudo certo.

E por aí poderíamos seguir com uma lista quase sem fim.

Mas pra que se movimentar?!

A tônica de quase todas as mulheres que nos procuram é a mesma: “Eu quero muito conhecer o trabalho de vocês, mas preciso convencer o meu marido e isso é impossível”.

E das inúmeras pessoas que nos procuram, poucos são os que se arriscam a experimentar uma intimidade suficientemente boa, que os coloquem nos trilhos do desenvolvimento da saúde do relacionamento.

São raríssimos os homens que estão em um relacionamento “estável” e que se abrem ao “perigo” de gerar movimentos que desmobilizem o status quo atual, “satisfatório”, “seguro” ou “confortável” do relacionamento.

Carga hereditária

Tenham compaixão de nós, os homens. Há muitas e muitas gerações somos lutadores resistentes, estamos agarrados e apegados exatamente ao sistema que nos faz sofrer, ao sistema que introjeta em todos nós que homem tem que ser macho, com toda a parafernália e confusão que essa introjeção possa representar.

Mesmo sendo este o cenário do conto de fadas da utopia masculina, o homem encontra uma estratégia racional e “inteligente” de se defender de toda essa pressão, ao buscar esconderijo atrás das trincheiras seguras de um ambiente familiar, ou de um relacionamento íntimo que acolhe e não confronta suas inseguranças internas, ofertando, em troca, uma satisfação mínima, quase suficiente (ou sempre insuficiente), de uma autoimagem nutrida pelo meio social, e que nada lhe motiva a ir muito além disso, simplesmente porque existe uma “ideia maluca” de que este percurso pode ser perigoso ou significar a perda de algo relacionado ao sustento do seu lugar de homem diante da vida.

Será que algum dos gêneros sofre mais com esse sistema que não deu certo?

A ironia implícita do fato é que, dificilmente o homem se dá conta que o lugar do masculino, supostamente privilegiado no sistema, talvez o torne a maior das vítimas, ao fazê-lo carregar o peso de sustentar esta estética sem sucumbir ou sem deixar-se vulnerabilizar. Sistema esse que foi estruturado pelo seu próprio gênero, em resposta excessivamente racional e estratégica aos “perigos” de se tornar “apenas o outro gênero”, não mais necessariamente o dominante pela lei social inconsciente.

Os homens estão apegados há um suposto “conforto” e conformados com o desfrute das migalhas, que podem ser desenhadas como uma analogia caricaturada ao descrevermos o orgasmo masculino mais comum que, nas melhores das hipóteses, acontece em dissonância do orgasmo feminino (quando este também acontece), tem a incrível duração de 2,5 segundos e se assemelha muito a uma pequena descarga elétrica de alguns poucos volts concentrados na região genital.

Falo assim, com essa dose de sarcasmo, porque, no geral, os homens que estão tão resistentes a se aventurarem em uma jornada como esta, despendem uma quantidade enorme de energia inconsciente para resistirem à morte ou às transformações que lhe trarão justamente a propriedade mais verdadeira deste lugar de homem que todos almejamos ocupar.

Na lida terapêutica com os homens eu sentia uma dificuldade enorme de entender tamanha resistência por parte da maioria. E então fui buscar em mim e na minha história.

Quais eram os verdadeiros motivos das minhas próprias resistências?

Eureka! A constatação de que os fantasmas se repetem, são os mesmos, muitas vezes são inconscientes e na grande maioria são historinhas de monstros que contamos a nós mesmos com os nossos próprios pensamentos.

Sempre muito diferentes da realidade concreta que encontramos ao olharmos a sexualidade do ponto de vista da naturalidade. Geralmente tem a ver com algo desta estética do masculino idealizado, o que não desmerece a importância de tratarmos o assunto com cuidado, para que as desconstruções destes castelos de areia aconteçam e finalmente liberem o homem do peso infundado que atrapalha intensamente o fluxo da sua própria realização como homem em todos os âmbitos da sua vida.

Papo reto e claro

O papo reto e claro é que a sexualidade é um calcanhar de Aquiles para o homem, onde ele apoia grande, senão a maior parte de sua expressão masculina na vida, em uma racionalização intensa sobre o tema, muitas vezes inconsciente e sempre insuficiente para sustentar a experiência real e concreta de ser homem, e que necessariamente passa e deve incluir o corpo e a experiência física.

Racionalização que se transforma em fantasmas ou fantasias, quase sempre não expostas ou não realizadas, que ficam pairando em volta do tema. Coisas como o tamanho do próprio pênis, que deve ser pelo menos 4 centímetros maior do que a média mundial, sustentar prolongadas e satisfatórias ereções, satisfazer uma mulher a níveis estratosféricos ou minimamente superior a TODOS os outros homens do entorno, conviver com a dúvida de realmente não saber se a mulher gozou ou se fingiu o orgasmo para não causar desconforto, uma sede mental excessiva por uma sexualidade performática e pornograficamente hollywoodiana, vivida exclusivamente nos pensamentos e nunca no próprio corpo, a comparação com outros homens, a não autorização de broxar, o medo de ser descoberto em sua performance mais íntima. Tudo isso na companhia não menos suave de se sentir o responsável pelo sustento da casa, de ter que ganhar bem ou no mínimo mais do que a mulher, descascar pepinos com eficiência, estar bem cuidado e com aparência física atraente, ser gentil, ter um lado feminino bem desenvolvido e exposto, sem perder a virilidade e com nenhuma licença para agir com estupidez.

Ufa! Mais uma vez poderíamos seguir adiante com a lista, mas acho que já deu pra sacar.

Chega de alimentar esses monstros

São fantasias e monstros muito comuns, que pairam sobre a maioria dos homens, que até têm vontade de se aventurar por um caminho de mais abertura, mas que não se dispõem ao pensar que serão expostos, serão envergonhados ou que perderão algo de crucial para o sustento de sua virilidade.

Essa resistência é natural da própria personalidade que se ocupa de nos defender de movimentos autênticos e maduros que possam nos trazer uma liberdade mais verdadeira.

Qual seria o eu que eu poderia surgir a partir desta entrega?

Um homem adulto coloca a vulnerabilidade a favor de seu crescimento, deixa-se tocar por novas experiências, opta por sair do excesso de racionalização e vive o desenvolvimento no seu próprio corpo. Este mesmo homem que opta por dar estes passos, encontra, na outra margem do rio, um lugar acolhedor e uma qualidade de liberdade inédita. É um lugar onde a ditadura da ereção e da estética do masculino imposta pelo patriarcado se dissolvem e são acolhidas por uma atitude interna consciente, instintiva e cada vez mais natural. E então percebe que aquilo que ele resistia era exatamente o que lhe impedia de chegar em lugares realmente mais expandidos de sentir o prazer de ser quem é, sem tantas amarras, pesos e exigências inconscientes.

Então o meu convite aos homens é este, que se arrisquem nesta jornada, além dos pesos e exigências desta estética ultrapassada que ainda impera.

Este é um caminho de construção de um novo homem, que também tem sido urgentemente solicitado por um sistema mais elevado e amoroso que também se destaca em ascensão constante na humanidade.