O artista brasileiro Ernesto Neto e o povo indígena de Huni Kuin transformaram uma galeria de arte em Viena em um local de cura único

Quem?

O artista brasileiro Ernesto Neto se uniu aos xamãs, artistas e mestres das plantas medicinais do povo indígena de Huni Kuin. Uma tribo original do sul do estado do Amazonas, com representantes também na região do Peru. Realizaram a exposição Aru Kuxipa na galeria de arte Thyssen-Bornemisza Art Contemporary em Viena.

O resultado é um local de cura capaz de transformar pessoas. Que leva os espectadores a vivenciarem a vida e práticas espirituais desse pequeno grupo. Há 8 mil quilômetros de distância de sua terra natal.

Neto é um dos artistas contemporâneos brasileiros de maior destaque internacional. Conhecido por instalações enormes e amorfas, como esculturas gigantes penduradas a grandes alturas. Que ele chama de “estalactites de tecido”, suaves e confeccionadas à partir de poliéster, areia e arroz.

Seu trabalho é como uma brincadeira sensual e envolve visitantes através do contato físico com a obra de arte. Tocando, cheirando e, por vezes, se deitando nas instalações.

A Tribo Huni Kuin e suas tradições

A tribo Huni Kuin tem uma história de abuso, doenças e expulsão de suas terras. Por segurança, se mantém o mais afastados possível de estranhos de qualquer natureza.

Composta por uma população de apenas 2.400 a 7.500. A tribo sobrevive graças a uma cultura de subsistência envolvendo caça, coleta e pesca.

“Os Huni Kuin tiveram que recriar sua cultura após terem sido proibidos de praticar e ensinar suas tradições de dança, canto e idioma.

Ter sua própria cultura, para esse povo, significou muita luta, vivendo em vilas escondidas dos colonizadores.

Isso criou neles a vontade e o poder de manter o homem branco longe de suas aldeias”, explica Neto.

O que?

Neto e membros de 37 comunidades Huni Kuin trabalharam na criação de um espaço de transformação e cura, combinando a expressão do artista e a cultura da tribo.

Os visitantes da instalação são levados a um local sagrado, onde o teto e paredes são cobertos por tecidos coloridos de crochê e povoados por objetos importantes aos rituais de cura Huni Kuin – como penas, teares e cachimbos.

O cetro espiritual da instalação é a NixiForestKupiXawa, um local de celebração e contemplação.

A exposição também inclui um exemplar do Livro da Cura dos Huni Kuin. Uma compilação de informações à respeito de 109 espécies de plantas medicinais. Confeccionado pelos pajés da tribo durante os últimos 30 anos.

A galeria também abriga outra exposição do artista, intitulada “A Gente se encontra aqui hoje, amanhã em outro lugar. Enquanto isso Deus é Deusa. Santa gravidade”. Que inclui as famosas estalactites de tecido representando a habilidade de amar e transcender a dualidade através da união.

Juntas, as instalações permitem que o visitante passe de um local de preparação e iniciação para locais cada vez mais sagrados de rituais, conhecimento e estudo, culminando na exploração dos mitos e canções da tribo.

Porque?

Aru Kuxipa foi uma instalação da galeria TBA21 a combinar exploração social e ambiental com práticas artísticas profundamente excitantes.

A Publisher Anna Dantes, amiga de Neto, foi a grande inspiradora da exposição: enquanto trabalhava com os pajés no Livro da Cura, ela convidou Neto a conhecer os envolvidos.

Ele visitou o coração da Amazônia em sua companhia, conhecendo rituais sagrados e vivenciando a cultura dos Huni Kuin. Sobre a experiência, Neto diz.

“Eles estão muito avançados em relação a nós. Mesmo com dificuldades materiais, eles vivem uma vida melhor. A cosmologia deles não está distante, envolvida em um raciocínio intelectual complexo – ela está aqui, ao alcance das mãos, nas pequenas coisas da vida: a forma como tratamos o outro, como dividimos, como cuidamos.

As visões do pajé são guiadas pelos yuxin – os Grandes Espíritos. Esses espíritos não estão num céu distante, mas nas plantas, animais, pessoas. São espíritos amigos – são como eu e você.”

Para Francesca von Habsburg, fundadora e presidente da TBA21 – que viajou com Neto e conheceu os Huni Kuin pessoalmente – a instalação é uma forma de oferecer a esse povo o poder de compartilhar sua cultura em primeira pessoa, sem interferência e interpretação externas.

“Eu diria que temos muito a aprender com eles, não apenas a escutar nosso planeta – mas a ouvir e compreender o que ele tem a nos dizer”, diz. “Precisamos entender o raciocínio da ecologia e como ela pode nos ajudar a tomar decisões melhores. Precisamos ouvir o planeta. E, se os Huni Kuin são um dos canais de expressão desse planeta, então devemos permitir que eles falem com toda a humanidade”, conclui.

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